O elemento basilar para a construção da prática é a constatação da existência, mundialmente, do fenômeno cunhado como “erosão genética”, que em seu sentido mais amplo concretiza-se como a perda de componentes do patrimônio genético das espécies e, por consequência, na perda de valores culturais de comunidades agrícolas. Diante dessa realidade a equipe integrante do Projeto “Sementes Crioulas” na Embrapa Clima Temperado em conjunto, particularmente, com a Emater/RS (órgão oficial de extensão rural do estado do Rio Grande do Sul) e com a Universidade Federal de Pelotas, elaborou um plano de pesquisas destinado a identificar guardiões de sementes, que são os agricultores que mantém as variedades crioulas. Em sequência, buscou-se caracterizá-los no intuito de definir sua identidade, tendo como horizonte a materialização de políticas públicas destinadas à proteção e promoção destes agricultores. 

Através da implantação do plano, desde 2010 já foram: (1) realizados sete Seminários, sendo que um deles teve caráter internacional; (2)  identificados cerca de 200 guardiões de sementes crioulas; (3) realizadas mais de 70 feiras de sementes; (4)  criados cinco núcleos de formação de guardiões mirins ; (5) mapeados doze núcleos de guardiões de sementes em diversas regiões do estado; e (6) caracterizadas mútuas participações de guardiões de diversas regiões nas feiras de troca de sementes, refletindo a aproximação desejada entre os mesmos. 

 

A - Informações gerais

 

INÍCIO: Abril de 2007 (em andamento)

ENTIDADES EXECUTORAS: Embrapa Clima Temperado

ENTIDADES CO-EXECUTORAS: Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural - EMATER/RS

PARCEIROS: UNAIC (União das Associações Comunitárias do Interior de Canguçu), COOPERAL (Cooperativa Regional dos Assentados.), COOPAR (Cooperativa dos Pequenos Agricultores da Região Sul), COOAFAN (Cooperativa dos Agricultores Familiares Nortense), MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores), COONATERRA (Cooperativa Agroecológica Nacional Terra e Vida) - Bionatur, Prefeitura de Rio Grande, AGABIO (Associação dos Guardiões da Biodiversidade de Tenente Portela), Emater/RS, MAPA - Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, MDA - Ministério do Desenvolvimento Agrário, IRGA (Instituto Riograndense do Arroz), UFPEL (Universidade Federal de Pelotas) e UFSM (Universidade Federal de Santa Maria). 

APRESENTADO POR: Irajá Ferreira Antunes

RECURSOS:  Próprios e de terceiros

FAIXA DE VALOR: Acima de US$ 25 mil 

CATEGORIA: Projeto 

ÁREA TEMÁTICA PRINCIPAL: Segurança Alimentar e Nutricional

PALAVRAS-CHAVE: Agricultura, segurança alimentar, inclusão sócio-produtiva, sustentabilidade, sementes crioulas, guardiões de sementes, Embrapa Clima Temperado, recursos genéticos, agricultores, consumidores, melhoramento de plantas

PÚBLICO-ALVO: Agricultores familiares; assentados; indígenas; quilombolas; cidadãos urbanos, pesquisadores, associações de agricultores, cooperativas, entidades representativas de agricultores, estudantes de escolas rurais, prefeituras, universidades e instituições de pesquisa. 

LOCALIZAÇÃO: Área rural 

ABRANGÊNCIA GEOGRÁFICA: Estadual - Rio Grande do Sul

ÁREA ESPECÍFICA DE IMPLANTAÇÃO: Municípios de Mostardas, Caçapava, Cerrito, Tenente Portela, Miraguaí, Barra do Ribeiro, Canguçu, Tapes, Camaquã, Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Garibaldi, Santa Cruz do Sul, Candelária, Morro Redondo, São José do Norte, Tavares, Capão do Leão, Piratini, Canguçu, Ibarama, Rio Grande, Candiota, Capivari do Sul, Santa Rosa, Palmitinho, Vista Alegre, Taquaruçu do Sul, Novo Hamburgo (no distrito de Lomba Grande), Mampituba, Ipê, Frederico Westphalen, Venâncio Aires, Cerro Largo, Panambi, Morro Redondo e São Lourenço do Sul.

 

B - Descrição da prática

 

1- ANTECEDENTES

Historicamente, a sustentação da humanidade em termos de segurança alimentar está no uso das sementes conceituadas como crioulas. A partir do advento da agricultura moderna, deflagrada após a Segunda Guerra Mundial, passou a ser observada uma mudança no uso de variedades, em que os agricultores passaram a assimilar variedades desenvolvidas por uma crescente indústria de sementes, abandonando as suas tradicionais, sendo muitas dessas perdidas. Na Embrapa Clima Temperado, o entendimento da riqueza presente nestas variedades, aliado à percepção desta significativa perda, fez surgir o “Projeto Sementes Crioulas”, em 2007. As espécies que o projeto se propôs a estudar em seus aspectos agronômicos, funcionais e nutricionais, além de suas relações sócio-culturais, são importantes na dieta do povo brasileiro, explicitamente feijão, milho, abóboras, pepino, feijão-miúdo, cebola, batata doce, amendoim, mandioca e pimentas.

Neste contexto, surgiu a figura do “guardião de sementes”, aquele que preserva as variedades crioulas. Evidenciou-se então ser fundamental entendê-lo, na busca de sua identidade, simultaneamente contribuindo, como consequência, para uma maior segurança alimentar. Como resultado, verificou-se que o guardião de sementes está envelhecido, isolado e, normalmente, sem herdeiros, fatos estes que comprometem o futuro das variedades crioulas, consequentemente, fragilizando a questão da segurança alimentar. Surgiu daí a necessidade de estabelecer instrumentos de sustentação aos guardiões de modo a contribuir na consolidação dos processos de segurança alimentar.

  

2- OBJETIVO GERAL

Promover a segurança alimentar e nutricional tendo como base a identificação e a valorização do guardião de sementes crioulas, o agente de preservação da riqueza patrimonial que representam as variedades crioulas.

Objetivos específicos:

  • Identificar guardiões de sementes, a partir de uma conceituação desenvolvida em parceria com organizações representativas de agricultores familiares;
  • Aprimorar o entendimento de sua identidade, caracterizando-o;
  • Promover a formação de entidades associativas que os abriguem;
  • Promover a formação de novos guardiões a partir do envolvimento de jovens, principalmente filhos de agricultores;
  • Promover sua participação em feiras de sementes com vistas a ampliar a agrobiodiversidade, mediante o troca-troca de sementes, e alcançar seu reconhecimento por parte da sociedade, contribuindo desta forma para a solidificação da segurança alimentar.

 

3 - SOLUÇÃO ADOTADA

A solução encontrada foi, inicialmente, a realização de encontros que permitissem caracterizar os agricultores que possuem como prática cotidiana a conservação das variedades crioulas, ou tradicionais. Em 2010, na Estação de Terras Baixas da Embrapa Clima Temperado, foi realizado um encontro pioneiro reunindo entidades representativas destes agricultores, dentre estas, a Cooperativa Coonaterra/Bionatur, o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e a União das Associações Comunitárias do Interior de Canguçu (UNAIC). Após a devida formulação conceitual preliminar, antecedida por discussões que envolveram situações polêmicas em virtude da necessidade de distinguir o agricultor mantenedor de variedades crioulas de agricultores que cultivam suas variedades sem esta finalidade, foi apresentada a sugestão do termo “guardião de sementes” para identificá-lo.

Em sequencia, surgiu a necessidade de melhor conhecer a realidade vivida por esses agricultores, compreendendo, dentre outros elementos, sua idade; sua etnia; sua distribuição no espaço territorial de estado; as motivações que o tornaram um mantenedor da agrobiodiversidade; suas relações com outros guardiões; sua condição econômica; a quantidade e a variabilidade de variedades crioulas que mantém e as espécies a que essas estão associadas; o tecido social a que pertence o guardião; suas relações de troca; suas carências, etc. Tratava-se de entender a natureza do guardião.

Após iniciar os estudos destinados a conhecer a realidade sociocultural em que estão inseridos, foi realizada a busca desses guardiões de sementes nas comunidades do Rio Grande do Sul. Essa etapa contou com a colaboração da Emater/RS e dos próprios guardiões, tendo como princípio o reconhecimento da comunidade em que o mesmo se encontra inserido. Na fase seguinte, proporcionou-se o processo de aproximação entre os guardiões tendo como elemento de agregação o Seminário Agrobiodiversidade e Segurança Alimentar que passou a ser realizado anualmente na Embrapa Clima Temperado, em Pelotas-RS. O guardião passou a ter protagonismo e foi iniciada a construção de sua identidade.

No processo de construção da identidade foram desenvolvidos trabalhos acadêmicos envolvendo dissertações de mestrado e teses de doutorado que implicaram na realização de visitas regulares até às propriedades dos guardiões, tendo como um dos focos principais o entendimento dos porquês que levam o agricultor a tornar-se um guardião de sementes. Da mesma forma, a construção deu-se a partir do conhecimento adquirido durante os Seminários Agrobiodiversidade e Segurança Alimentar, tanto pelas palestras proferidas pelos guardiões como através dos debates e diálogos ocorridos nesses encontros.

Por último, os esforços se concentraram em estimular a criação de grupos organizados de guardiões e a realização de Feiras de Sementes onde conhecimentos e, principalmente, sementes constituintes de suas tradições culturais, pudessem ser compartilhados. Durante essa fase, deu-se início à participação, nos Seminários, de escolas rurais em que os alunos já tivessem iniciado o processo de internalização dos princípios que regem a condição de guardião de sementes, materializando a sua condição de “guardião mirim”. A prática aqui relatada sofreu um processo evolutivo que vem acompanhando os Seminários de Agrobiodiversidade e Segurança Alimentar, que em 2016 atingiu a sua sexta edição, em paralelo à realização de outros encontros e Feiras de Sementes Crioulas que têm ocorrido em todo o estado do Rio Grande do Sul.

 

 4 - RESULTADOS ALCANÇADOS

Os resultados alcançados pela implantação das estratégias aqui relatadas, por intermédio de projetos de pesquisa envolvendo as sementes crioulas e seus guardiões, estão detalhados a seguir:

  • Identificação de mais de 200 guardiões localizados em todas as regiões do Rio Grande do Sul;
  • Identificação das etnias que concentram guardiões de sementes: (1) quilombola - presentes nos municípios de Mostardas, Caçapava e Cerrito; (2) indígenas Guarani e Kaingang - localizados nos municípios de Tenente Portela, Miraguaí, Barra do Ribeiro, Canguçu, Tapes, Camaquã; (3) italiana - concentrados principalmente na região serrana do estado, como em Caxias do Sul, Ibarama, Passa Sete, Bento Gonçalves e Garibaldi; (4) alemã - em Santa Cruz do Sul, Sinimbu, Candelária, Novo Hamburgo e Morro Redondo; (5) açoriana, principalmente no Litoral Sul, como São José do Norte, Tavares e Mostardas e (6) portuguesa, como em Capão do Leão, Piratini, Canguçu e inúmeros outros municípios;
  • Identificação e organização/orientação dos núcleos formais de guardiões de sementes. Entre as organizações formais estão: Associação dos Guardiões da Agrobiodiversidade de Tenente Portela, na região do Alto Uruguai; Associação dos Agricultores Guardiões de Sementes de Ibarama; Associação dos Guardiões do Município de Rio Grande; Bionatur-Coonaterra, entidade formada por agricultores assentados da reforma agrária, integrantes do Movimento Sem Terra, que produz sementes agroecológicas, abrangendo agricultores de cinco municípios no Rio Grande do Sul, com atuação também no estado de Minas Gerais;
  • Identificação e organização/orientação dos núcleos informais de guardiões de sementes: na região Litoral Sul, abrangendo os municípios de São José do Norte, Tavares, Mostardas e Capivari do Sul; na região Noroeste, compreendendo os municípios pertencentes à região de influência de Santa Rosa; na região das Missões, os municípios de Palmitinho, Vista Alegre, Taquaruçu do Sul e nas regiões dos municípios de Novo Hamburgo (no distrito de Lomba Grande), Mampituba, Candelária e Ipê;
  • Realização de mais de 70 feiras. Somente no ano de 2015 foram realizadas 20 feiras de sementes crioulas. Também estão contempladas aqui as feiras de produtos da agrobiodiversidade no meio urbano, comprovando o entendimento que os guardiões e as comunidades rurais adquiriram sobre a importância das sementes crioulas e dos princípios da agroecologia, normalmente a elas associados, e da importância de suas relações com o meio urbano. Tais iniciativas, em sua grande maioria, tiveram suas criações posteriormente ao início dos seminários Agrobiodiversidade e Segurança Alimentar, provavelmente a partir da conscientização adquirida em meio a este ambiente de coparticipação e protagonismo que os Seminários proporcionam. Cabe relatar a existência de feiras de produtos agroecológicos conduzidas pela primeira vez em 2015, nos municípios de Tenente Portela e Rio Grande, além das feiras de sementes crioulas de Frederico Westphalen, Rio Grande, Venâncio Aires, Cerro Largo e Panambi, todas estas em sua primeira edição;
  • Compartilhamento entre os agricultores e guardiões de sementes de diversas variedades crioulas. Foi observada uma significativa variabilidade para as espécies alimentares em uso pelos agricultores nas diversas feiras de sementes, destacando-se o feijão, o milho e as abóboras, mas também variabilidade em diversas espécies de hortaliças, como tomate, alface e cebola, dentre outras;
  • Participação plurirregional de agricultores nas feiras de sementes, sugerindo a existência de uma resposta ao entendimento adquirido durante os Seminários sobre a realidade e perspectivas da produção de sementes crioulas;
  • Observação de crescimento da autoestima dos agricultores guardiões, acontecida no desenrolar dos Seminários, durante os quais o protagonismo dado aos guardiões, implica no reconhecimento do importante papel que os mesmos exercem por parte da sociedade. Essa avaliação tem sido constatada a partir das declarações manifestadas em entrevistas, bem como pelo comportamento descontraído apresentado pelos guardiões durante os eventos de que participam;
  • Realização, desde 2011, do Seminário Agrobiodiversidade e Segurança Alimentar, que congrega anualmente os guardiões, que atingiu em 2016, sua 6ª edição, com cerca de 400 participantes, em sua maioria agricultores, revelando a eficiência da metodologia adotada. Durante os eventos, os guardiões de diversas etnias (indígenas, quilombolas, alemães, italianos, portugueses) têm sido protagonistas de palestras relatando suas realidades e suas relações com as sementes crioulas;
  • Concessão, a partir do IV Seminário, realizado em 2014, de um documento de reconhecimento (certificado) aos agricultores identificados como “Guardiões de Sementes” presentes no evento;
  • Criação de cinco núcleos de formação de guardiões mirins nos municípios de Ibarama, Tenente Portela, Canguçu, Santa Cruz e São Lourenço do Sul. 

Os resultados alcançados, dentro de um processo evolutivo de construção da identidade do Guardião de Sementes, possibilitam ver que a conscientização da importância de ser um guardião, bem como o compartilhamento das sementes das variedades crioulas verificados nos seminários e feiras de sementes realizados, permitem identificar um cenário favorável na direção de uma maior segurança alimentar pela ampliação da capacidade de conservação dessas variedades, o que pode ser traduzido como uma contribuição efetiva para uma  agricultura mais sustentável.

 

5 - RECURSOS NECESSÁRIOS

Recursos Humanos: 10 pesquisadores com formação em melhoramento genético, tecnologia de sementes, transferência de tecnologia, recursos genéticos e química de alimentos; 08 bolsistas nos níveis de graduação, mestrado e doutorado; 50 técnicos da extensão rural, compreendendo os diversos municípios envolvidos na prática; 04 professores de quatro escolas inseridas no meio rural e 05 empregados auxiliares do quadro da Embrapa; 

 

Recursos Materiais:

- Espaço para realização do seminário anual;
- 02 telados para multiplicação de sementes;
- 01 ou mais veículos para deslocamento dos agricultores para os locais de feiras e dos Seminários;
- Alimentação durante os eventos para os agricultores participantes;
- Instalações para realização de Feiras, cuja responsabilidade é das organizações locais de agricultores, sempre com o apoio da Embrapa e da Emater e, eventualmente, das Prefeituras locais. 
 

 

6 - TRANSFERÊNCIA

A prática foi estabelecida a partir de 2010, quando da reunião das instituições representativas dos agricultores, na qual foram identificados parâmetros de conceituação do guardião de sementes. A partir desse encontro ficou também estabelecida a necessidade de, aplicando os parâmetros que caracterizam o guardião, identificá-los e aproximá-los, o que ficou concretizado com a criação do evento denominado Seminário Agrobiodiversidade e Segurança Alimentar, sendo o primeiro realizado em 01 de setembro de 2011 e a partir daí, anualmente. O seminário, pela confluência dos agricultores guardiões a ele, teve o mérito de servir como meio de incentivo, como embrião, à realização de diversos encontros relacionados ao tema “sementes crioulas” tais como aqueles realizados em 2015, como a Mostra da Agrobiodiversidade/ Encruzilhada do Sul; 2ª Mostra da Agrobiodiversidade, Tenente Portela; Iª Feira de Sementes Crioulas de Rio Grande, Rio Grande; I Feira Regional da Agricultura Familiar, Agroindústria Familiar, Artesanato e Biodiversidade de Frederico Westphalen, I Feira Missioneira de Cerro Largo e Abertura da Colheita da Cebola/Mostra da Agrobiodiversidade Local na Alimentação, de São José do Norte. Estes encontros serviram, consequentemente, como aglutinadores em nível regional, dos guardiões de sementes crioulas.

O processo de formação da identidade do guardião, bem como de representação dos mesmos, está em contínuo aperfeiçoamento e o crescimento do público envolvido e o surgimento de novas demandas por parte dos grupos envolvidos, geraram outras necessidades que têm sido equacionadas paulatinamente. Exemplificando, o transporte dos guardiões até os locais dos eventos, exigiu a realização de um planejamento quanto à logística a ser adotada, o mesmo acontecendo em termos de hospedagem e alimentação. Da mesma forma, foi o envolvimento dos guardiões e dos palestrantes convidados, que exigiu uma reflexão aprofundada no sentido de tornar os eventos mais eficazes ao processo de criação das entidades associativas dos guardiões. 

 

7 - LIÇÕES APRENDIDAS

O grande aprendizado por parte da Embrapa foi o entendimento de que o processo interativo com os guardiões é fundamental no direcionamento correto dos esforços destinados à manutenção da agrobiodiversidade, neste conceito incluído o patrimônio cultural adjacente. O compartilhamento das variedades crioulas, conforme já relatado; a aproximação entre os grupos de guardiões; a socialização das experiências dos distintos grupos; o crescimento do número de guardiões envolvidos nos diversos encontros e a existência de um fórum anual (os Seminários) de discussão coletiva da problemática que cerca as atividades próprias dos guardiões, dentre outros, assegura o sucesso da prática estabelecida.

Em relação ao público alvo, principalmente os guardiões de sementes, o aspecto de maior relevância é a autoconscientização da importância do papel que ele, como guardião, exerce, o que, como consequência, elevou sua autoestima. Este ponto é fundamental porque tem implicações sobre a continuidade dos processos de conservação das sementes crioulas na medida em que influencia diretamente os filhos dos agricultores, levando-os a vislumbrar a possibilidade de viverem no mesmo ambiente de seus pais a partir do cultivo das mesmas sementes, auferindo renda com elas. O processo de construção da identidade de guardião é permanente. Já foi atingido um nível de crescimento significativo, pois hoje os guardiões possuem maior liberdade e autonomia que lhes permitem reivindicar demandas que conduzem a uma melhor qualidade de vida ao verem suas sementes valorizadas pela sociedade, o que concretamente conduz à manutenção e até ampliação da agrobiodiversidade e do patrimônio cultural, desembocando necessariamente, em uma maior segurança alimentar.

Os esforços de caracterização dos agricultores “guardiões de sementes” têm revelado a complexidade do cenário em que habitam. Um ponto fundamental, de unanimidade, é o fato de que para ser guardião é necessário o reconhecimento por parte da comunidade da qual o mesmo faz parte. Ao mesmo tempo, há guardiões que, por sua natureza, por vocação, conservam um grande número de variedades. Como exemplo, um guardião de variedades de arroz do Rio Grande do Sul mantém uma coleção de 38 variedades. Por outro lado, há guardiões que conservam apenas uma, ou poucas variedades, como acontece com guardiões de variedades de feijão-miúdo do Litoral Sul do Rio Grande do Sul. Há guardiões que conservam as variedades por uma questão de tradição familiar, por herança, enquanto há os que as preservam por seu significado econômico, já que constituem uma importante fonte de renda. Outra característica que foi confirmada a partir do encontro pioneiro de 2010 é o envelhecimento do guardião e a quase total inexistência de herdeiros diretos desse patrimônio. Tal cenário qualifica os pressupostos adotados na prática, na medida em que esses anteviam a necessidade de, ao valorizar as sementes crioulas, valorizar e proteger também ao guardião, aquele que as têm mantido através dos séculos.

A prática tem como um de seus entraves a dificuldade de aglutinar os guardiões do Rio Grande do Sul pela sua dispersão por todas as regiões. O deslocamento dos mesmos para um dado local implica em custos que necessitam grande esforço, com altos riscos da não obtenção de recursos para a sua cobertura. Entretanto, como apontado, os sacrifícios que têm sido enfrentados pelas equipes envolvidas na organização dos seminários e mesmo pelos próprios guardiões, têm sido altamente recompensados pelos resultados alcançados. Estes se concretizam em uma maior diversidade genética dos cultivos, advinda das trocas de sementes que acontecem nos diversos eventos realizados, que resultam em uma maior segurança alimentar, mas, também, no aumento da renda familiar e consequentemente na melhoria de vida observada em relação aos guardiões de sementes.

 

8 - ORIGINALIDADE DA PRÁTICA 

Trata-se de uma prática original, sem iniciativa similares identificadas na região.

 

 

 

Visitas: em qualquer época do ano, sem limite de visitantes. Recomenda-se apenas, para melhor atendimento, agendar previamente a visita com o coordenador técnico do projeto. 

 

 

Assessoria Técnica e Editoração
Eng. Carlos Biasi - Oficial de Programas da FAO/ONU para a Região Sul do Brasil. 
Msc. Felipe Jhonatan Alessio - Assistente de Programas da Unidade de Coordenação de Projetos da FAO/ONU no Sul do Brasil.

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